Quando Solange recebeu o telefonema da mãe avisando que Bruno estava no hospital, por um instante se arrependeu de ter largado o sertão da Bahia para tentar a vida na capital paulista. Havia deixado o filho – na época com oito anos – morando com os avós, e veio trabalhar como empregada doméstica em São Paulo. Ao saber do acidente, não pensou em outra coisa: o menino precisava vir para cá, e ser tratado no Hospital das Clínicas.
Bruno havia perdido a mão esquerda em uma moedora de cana. E não era dessas elétricas, não. No sertão baiano, onde morava, ainda usavam aquelas engrenagens de madeira puxadas por bois – como a que aparece no filme Abril Despedaçado. Foi ajudando seus avós a moer ração para o gado que o menino se distraiu, e teve o membro completamente destruído.

Moedora de cana usada no filme Abril Despedaçado
A mãe chegou ao setor de terapia ocupacional do Hospital das Clínicas achando que Bruno ganharia uma mão nova, já que, devido à gravidade do acidente, sua mão teve que ser amputada. Ele, convencido pela mãe, acreditava na mesma coisa.
Durante todo o tratamento, Solange só pensava na mão nova para o filho. Inúmeras vezes conversamos sobre a diferença entre as próteses estéticas, que são feitas de borracha e que não conseguimos movimentar, e as próteses mecânicas, que são parecidas com as estéticas, mas que através de um cabo preso ao ombro é possível abrir e fechar a mão substituta. Falamos especialmente sobre importância que isso tinha para Bruno, pois ele era o maior interessado, e quem teria que decidir sobre o uso de uma prótese.
Contudo, a culpa por ter deixado o garoto tão pequeno morando com os avós a fazia obcecada em conseguir a mão do filho de volta. Em seu desespero, chegou a escrever para o Programa do Gugu, contando sua história e pedindo uma mão nova. Em vão, tentei encaminhá-la ao serviço de psicologia, mas como ela não era a paciente, o hospital não pôde atendê-la.
O que mais incomodava Solange era o jeito com que as pessoas olhavam para o menino enquanto eles caminhavam pelas ruas. Bruno, ao contrário, só queria saber de terminar logo o tratamento e voltar para a Bahia. Estava em São Paulo há seis meses e sentia falta da escola e dos amigos. No início do tratamento, também achava que conseguiria outra mão de carne e osso, mas com o passar do tempo compreendeu melhor a situação.
A velocidade de melhora dos sintomas de uma doença, cicatrização de um corte, efeito de um remédio ou qualquer intervenção no organismo varia de pessoa para pessoa. Após uma amputação é comum aparecerem dores, choques e formigamentos na região em que ocorreu o corte. Além disso, tomar banho, comer, trocar de roupa e brincar pode ficar difícil, pois o corpo está diferente do que era antes. O tratamento de Bruno incluía acabar com esses sintomas e ajudá-lo a reaprender a fazer todas essas atividades.
Rapidamente ele já fazia tudo sozinho: ia para a escola, usava o computador, tomava banho, trocava de roupa e ainda jogava vôlei. Mas confesso que meu maior orgulho era saber que ele havia voltado a brincar de taco com as crianças da rua – brincadeira que, devido à força e velocidade necessárias, exige o uso das duas mãos.
Quando a prótese que Solange tanto queria chegou, o garoto já não a queria mais. Chegava no Hospital com o objeto dentro de uma sacolinha de supermercado, sob os xingos da mãe que insistia para que ele colocasse a mão mecânica. Aquela situação era desconfortável tanto para Bruno quanto para Solange, que ficava brava por ele não usar o aparelho.
Já perto do fim do tratamento, na tentativa de amenizar o conflito entre mãe e filho em torno da mão de plástico, conversei novamente com ela sobre sua insistência em querer que o filho usasse algo que, para ele, não fazia o menor sentido. Mesmo mostrando que Bruno conseguia fazer tudo sozinho, que se sentia bem como estava e, principalmente, que não queria usar nenhuma prótese, ela continuou irredutível.
Um dia, a caminho da oficina de próteses do hospital, quando estávamos somente eu e ele, fomos conversando sobre a prótese e eu perguntei o que ele faria com ela depois que voltasse para a Bahia, pois lá já não teria mais sua mãe por perto. Ele respondeu que ainda tentava usá-la apenas para agradar a mãe e que, para ele, essa história de substituir sua mão era inútil.
A mim só coube orientá-lo a fazer o que tivesse vontade, pois ele já havia aprendido a viver sem uma das mãos. A mãe, contudo, ainda relutou em entender que respeitar as decisões de alguém – mesmo que esse alguém tenha 12 anos – é muito importante. Na ânsia de ajudar, as pessoas acabam impondo seus próprios desejos, e esquecendo de que só quem vive na pele os problemas é que conhece seus limites e sabe do que precisa.




28/10/2011 em 7:36 pm
OLÁ MARIANA;A +/- UM MES DESCOBRI QUE MEU NETO VAI NASCER SEM A MÃOZINHA DIREITA , GOSTARIA MUITO DE APRENDER VARIAS FORMAS DE ENSINA-LO A FAZER COISAS DO TIPO QUE NEM AMARRAR SAPATO,COMO VI AQUI NESTE SITE ;VOCE PODERIA POR FAVOR, ME ORIENTAR ? . DESDE JÁ OBRIGADA VOVÓ MIRIA PS: O MIGUEL VAI NASCER EM DEZEMBRO.
16/11/2011 em 3:04 pm
Oi, Miria!
Pode deixar que vou publicar novos posts sobre esse assunto!
Abraço
26/10/2009 em 4:58 pm
sou estudante de terapia ocupacional e estou precisando de artigos referentes a amputaçao por esmagamento e dedos do membo superior, sae puder me ajudar ficarei muito grato.
desde ja agradeço a atenção e fico feliz pelo blog, que para mim vai ser de muita utilidade.
27/10/2009 em 10:01 pm
Olá, Fabiano!
Que bom que você gostou do blog! Espero que aproveite o espaço.
Com relação aos artigos, acredito que você possa encontrar muitos deles nas bases de dados da USP e da BIREME – que o acesso é on line.
Boa sorte!
Abraço,
Mariana
30/09/2009 em 12:43 am
OI, Mariana adorei a historia; No ano passado eu sofre um acidente de trabalho que acabei perdendo a mão direita até hoje sofro muito c/ a perda, mais confeso que o que mais mim encomoda e a questão de estetica, ainda tenho acompanhamento c/ a piscologa pois não consegir acostumar com a nova situação em que me encontro. Ao contrario de Bruno eu quero usar a prótese tenho certeza que mim sentirei bem melhor c/ ela. qui na bahia aonde posso encontra prótese de boa qualidade se poder me enforme. bjos obrigado.
30/09/2009 em 12:29 am
OI, Mariana adorei a historia no ano passado eu sofre um acidente de trabalho que acabei perdendo a mão direita até hoje sofro muito c/ a perda, mais confeso que o que mais mim encomoda e a estetica ainda tenho acompanhamento como a pcicologa~.não consigo mim acostumar com a nova situação.Ao contrario de Bruno eu quero usar a prótese tenho serteza que mim sentirei bem melhor c/ ela. bjossssssssss
13/02/2009 em 9:27 am
Adorei! Sou estudante ainda de terapia ocupacional e seus textos me ajudam a compreender mais esta profissão e as saídas que ela sugere para indivíduos que sofrem após traumas e as mais variadas doenças que os acometem! abração!!!
13/02/2009 em 3:32 pm
Obrigada pela visita Francisco!
A prática da terapia ocupacional é mesmo fascinante!!!
20/01/2009 em 6:56 pm
Olá.
Muito interessantes e ilustrativos os seus textos.
Parabéns.
Mauricio.
21/01/2009 em 10:49 am
Obrigada!!
14/01/2009 em 9:28 am
Olá Mari,
Obrigado por visitar meu blog, que bom que gostou dos meus textos!
Pode citá-lo sem problemas aqui,
Um grande abraço,
Rodrigo