Um murro na cara de dona Josefa

Aos 65 anos, dona Josefa frequentava um grupo terapêutico para idosos no Centro de Saúde do Butantã. Ela não tinha amigos e ficava a maior parte do tempo tomando conta de casa, dos dois netos pequenos e de Terezinha, sua sogra com doença de Alzheimer. Certo dia, chegou no centro de saúde extremamente abatida. E sem um dos dentes da frente.

A doença de Alzheimer é um tipo de demência que não se sabe a causa e que ainda não tem cura. Os pacientes vão perdendo pouco a pouco a memória: se esquecem dos nomes de conhecidos, deixam o fogão aceso, se perdem no caminho de casa e não conseguem formular uma frase inteira. Com a evolução da doença, vão deixando de tomar banho, trocar de roupa e ir ao banheiro sozinhos.

Cuidar de uma pessoa doente de 86 anos estava ficando cada vez mais difícil para dona Josefa. Com o avanço da doença, sua sogra já não reconhecia mais a casa em que estava morando, acreditava que familiares mortos estavam vivos e que Josefa estava decidida a matá-la.

Agressividade, delírios, mudança de personalidade, diminuição da capacidade motora e perda da fala também são comuns no Alzheimer. No caso de Terezinha, havia uma história trágica para cada situação do dia-a-dia.

Em uma dessas, encasquetou que Josefa a envenenaria. Para se proteger, escondia os remédios debaixo da língua e depois os jogava no lixo. A estratégia durou algum tempo até que a nora descobriu. A partir de então, obrigava a sogra a levantar a língua todas as vezes durante a medicação.

Para resolver essa situação imaginária de perigo, a velhinha criou outra saída para continuar viva: esconder as pílulas atrás dos dentes do fundo da boca. Saída quase perfeita, que só foi descoberta depois de vários meses, durante uma internação. A estratégia foi descoberta pelas faxineiras do hospital, que encontraram montes de remédio sob o colchão dela.

Para a idosa com Alzheimer, o envenenamento também poderia vir por meio da comida preparada por Josefa. A solução: pegar o prato com comida na cozinha, sair de fininho e jogar tudo atrás da cama ou pela janela.

Ouvir xingos, berros e acusações já havia se tornado uma constante na vida da nora, mas o que ela não esperava era levar um murro na boca enquanto dava o banho em Terezinha. O fardo de cuidar de uma pessoa com esse problema é grande, e dona Josefa já não estava mais aguentando cuidar nem de si mesma.

Poucos têm ajuda e nem sempre há profissionais que realmente conhecem essa doença. Naquele dia, no Centro de Saúde, conversamos sobre os sintomas, o tratamento, a causa e a evolução do Alzheimer, além da possibilidade de sua sogra ir para uma casa de repouso.

As pessoas sempre associam o Alzheimer com esquecimentos, dificuldade em falar e em organizar a casa, mas ninguém se lembra do cuidador – a pessoa que acompanha o doente. Esse sujeito também precisa de ajuda, pois a sobrecarga é extrema: dar banho, trocar as fraldas, alimentar… Muitas vezes, quem faz essas tarefas acaba não tendo tempo de conviver com amigos e familiares. E além de tudo isso, ainda há o peso de ver uma pessoa querida doente – algo que é sempre desgastante.

O pior de tudo é que a obrigação com o cuidado acaba ficando para algum familiar próximo, que na maioria das vezes também é um idoso.
Para saber um pouco mais, deixo algumas indicações de leitura na internet:

Órgão nacional que visa dar apoio as pessoas com Alzheimer e a seus cuidadores. Possui grupos de apoio e dicas.

Manual para o cuidador de pessoas com Alzheimer desenvolvido pelo médico geriatra Márcio F. Borges, coordenador da Sub-regional da ABRAz Juiz de Fora – MG.

Blog que conta as experiências de Rodrigo no cuidado diário de sua mãe com Alzheimer.

Blog que tem como objetivo apoiar cuidadores de pessoas com doença de alzheimer, dando dicas e informações sobre a doença.

9 respostas para “Um murro na cara de dona Josefa”

  1. cheap UGG Boots 5835 Tassel Short diz:

    Wonderful, that’s definitely what I was searching for! You just spared me alot of work

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  2. ivanilde ribeiro gino diz:

    LI todas as declaraçôes,realmente os problemas são os mesmos, e o sofrimento tambem.Cuido de meu marido com essa doença a quase dez anos praticamente sozinha,só tenho ajuda duas vezes por semana.É desgastante tanto do ponto de vista fisico como emocional,eles se tornam muito dependente de nós a ponto de nos sufocar.Felizmente ele se trata na UFRJ Em Botafogo ,RIO DE JANEIRO,no setor CDA ,do IPUB.Onde é atendido por pessoas altamente qualificadas,atenciosas e simpaticas.Seria muito bom se houvesse esse serviço por todo BRASIL,e que qualquer pessoa tivesse acesso.Utopia diante da situação da saude neste paiz.Só resta a nós cuidadorese familiares pedir a DEUS força,saúde e paciencia para levarmos a cabo nossa missão.

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  3. vitalina lima diz:

    Prezada Mariana,obrigada pela divulgação do blog.

    Estou à disposição de você e de todos os seus leitores.
    Abraço,
    vitalina

    blog sobre alzheimer:
    http://vitalinalazheimer.blogspot.com

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  4. Adriana Barbosa diz:

    Boa noite. Hoje em pesquisa pela net na busca de alguma clínica para internação de pessoa portadora de Alzheimer encontrei este blog a história que li me fez lembrar o que minha mãe está passando. Minha tia está com alzheimer a 9 anos e cada vez a doença vem avançando mais e mais, ela já chegou a agredir minha mãe, enquanto minha mãe dava banho nela ela pegou a cabeça de minha mãe e bateu na parede. É uma situação muito triste pois não temos condições de pagar algum profissional para tomar conta dela. Ela é aposentada e recebe só um salário mínimo que mal dá para as fraldas, os remédios e a alimentação que minha cuida muito bem com frutas, leite, verduras, carnes, uma alimentação bem rica e balanceada. Gostaria de informação sobre clínicas de repouso para pessoas com doença de alzheimer, para que minha mãe que tem 65 anos pudesse descansar desta rotina árdua de lidar 24 horas com um portador de alzheimer. Já internamos ela uma vez em uma clínica mais era para pessoas portadoras de distúrbios mentais e sentimos um certo maltrato em relação aos cuidados dispensados. Se alguém tiver alguma informação gostaria que informassem, pois é muito triste ver essa situação: duas pessoas que você ama sendo entregues a mercê de um destino cruel. Eu sou professora municipal e psicopedagoga em uma APAE, trabalho o dia todo não sobrando tempo para ajudar minha mãe, estou pagando empréstimo no banco que peguei para estudar pago aluguel e ajudo meu marido nas despesas, não sobra muito para ajudar minha mão, ás Vezes, fico frustrada, com essa impotência. É tão triste ver alguém que era ativa, trabalhadora, alegre em um estado caótico que a doença de alzheimer causa. Devemos orar a Deus e pedir paciência e saúde as pessoas que estão vivendo essa situação.

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  5. Mara diz:

    Parabéns!
    À TO Mariana pelo seu blog, que através dele muitos poderão ser ajudados e esclarecidos.
    Deixo a você e a todos portadores de alguma deficiência e familiares esta pequena escrita:

    A Mente

    A máquina mais complexa do ser humano,
    A mente em desencanto.
    Depressão, opressão, transformação,
    A mente sem coordenação.

    Julgamentos, incompreenção, insatisfação.
    Revoltas, descórdias e derrotas
    Decisões incabíveis
    Resultados insolúveis

    Metamorfose, para ser iluminada, irradiada, espelhada, consagrada.
    Crer é saber
    Saber é conhecer
    Conhecer é buscar
    Buscar é determinar

    A mente, teia exuberante com várias ligações
    Tem que ser cuidada, em virtude
    Para que saudável use em plenitude
    Na ampla ação para transformação da configuração em realização.

    A beleza da vida está nos pequeninos gestos.
    Parabéns a todos os profissionais.

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  6. Ana Paula diz:

    Oiee adorei muuuuito o seu blog!!
    Sou estudante de To e um dos motivos que fiz o blog era pra achar pessoas como você….
    Muito bom ler os seus relatos…

    Até mais, abraço.

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  7. desestressa mano diz:

    gostei do blog, vou voltar aqui.

    sucesso e felicidades

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  8. Edel diz:

    Oi Mari,

    Gostei do seu blog, as histórias são muito interessantes, vou ler sempre.

    Beijos.

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