Quanto vale uma bicicleta?

Osvaldo levantou cedinho para ir trabalhar. Tomou café preto, pegou a marmita preparada na noite anterior, deu um beijo na esposa e montou em sua bicicleta rumo à serralheria. O trajeto era sempre o mesmo, seguindo de casa para o trabalho e de lá para casa, todos os dias.

Naquela manhã, no caminho para a oficina, foi surpreendido por quatro rapazes. Eles queriam roubar sua bicicleta. O pobre homem não se conformou, afinal ela era velha, nem marcha tinha e ele a usava apenas para economizar o dinheiro do ônibus. Não teve dúvidas: bateu o pé e se negou a entregar a magrela.

bike

Talvez resistir não tenha sido uma boa idéia, pois Osvaldo estava fora de forma, e era um contra quatro. Como prêmio pela ousadia, ganhou três dias na UTI do Hospital das Clínicas, duas cirurgias plásticas no rosto, algumas fraturas e muitos atendimentos de terapia ocupacional.

Escovar os dentes, fazer a barba, pentear os cabelos, escrever e ir ao supermercado eram apenas algumas das coisas que ele não conseguia mais fazer, e que eu teria que tentar solucionar.

Devido às fraturas e às cirurgias, ele mal conseguia movimentar seu braço direito, que ficou rígido pela falta de movimentação e pela violência das pancadas. Dizia que andar de ônibus e de metrô era o mais difícil, pois além de não conseguir levantar o braço, não tinha força para se segurar nas barras.

Osvaldo veio do Nordeste ainda pequeno com a família. Conseguiu estudar até a quarta série do ensino fundamental, e desde a adolescência trabalhou em lojas de lustres da rua Consolação. Para ele, trabalhar na serralheria com carteira assinada era uma vitória, ainda mais por que, se não fosse isso, ele não estaria recebendo auxílio do INSS e não poderia continuar com a reabilitação.

Paciente dedicado, seguia a fio os exercícios com elástico e levantamento de peso para fortalecer a musculatura do braço e do antebraço e aumentar a abertura do cotovelo.

O braço direito, mesmo após algumas cirurgias, nunca voltou ao que era antes, não dava para esticá-lo e fechá-lo completamente. Além das cicatrizes no rosto, que ficou desalinhado, essas eram das piores lembranças que ficaram do espancamento.

Graças ao tratamento, Osvaldo voltou a fazer tudo sozinho como se nunca tivesse sido internado. Conseguir carregar uma sacolinha de supermercado e pegar uma lata de ervilhas da prateleira parecem ser coisas que não têm muita importância, que dá para fazer com a ajuda de alguém. É só pedir, né?

Mas a sutileza está em entender a diferença entre pedir a alguém para levar suas sacolas porque elas estão pesadas, e simplesmente não ter força para carregar uma com meia dúzia de pãezinhos.

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fevereiro 4, 2009  Tags:   Posted in: História de Vida, Ortopedia

  1. Mary Ann - fevereiro 19, 2009

    Ai uma TO no meu blog =)))) que orgulhoooooo eheh

    Este blog está muito fixe, vou segui-lo até porque o próximo problema é reabilitação física ;)

    Obrigada por comentar!

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  2. Zaira R. dos Santos Figueira - julho 2, 2009

    Fico feliz qdo vejo que temos TOs bem empenhadas e com clareza dos objetivos da nossa profissão.
    Parabens.
    Se vc tiver algum materia sobre a atuação da TO reabilitação de MMII,por favor, envi para mim.

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  3. Ernande - julho 19, 2009

    Olá Mariana…sou Enfermeiro e trabalho com saúde coletiva e atualmente dou aula na Faculdade AGES, na BAhia. Descobri seu site essa semana e tenho utilizado suas histórias no processo de ensino aprendezagem.
    Também costumo narrar as história que vivencio em um blog e em breve estarei lançando um livro sobre elas.
    Fiquei muito feliz em encontrar seu site.

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