Problemas familiares e os profissionais da saúde
Pela terceira vez seguida a equipe de serviço social tentava entrar em contato com a famÃlia de dona Mitiko. Com 66 anos, ela estava só, abandonada no leito do hospital e dependendo de pessoas estranhas para comer e trocar suas fraldas.
Seu marido era alcoólatra, o filho mais velho tinha esquizofrenia e era viciado em drogas. O caçula, seu preferido, tinha ido embora para tentar a sorte no Japão.
Havia três anos que ela estava morando em uma casa de repouso, sozinha e sem visitas, com exceção das anuais aparições do filho mais novo em suas vindas ao Brasil. As contas de sua estadia eram pagas pelo Estado, e o dinheiro de sua aposentadoria era dividido entre o marido e seu primogênito.
Mitiko, no hospital para descobrir as causas de um desmaio, tinha uma coleção de problemas: diabetes, hipertensão arterial, osteoporose e insuficiência renal crônica. Para completar, estava desnutrida, com feridas nos calcanhares e com o diagnóstico de demência.
O tratamento com a Terapia Ocupacional foi indicado para que ela recuperasse a capacidade de comer sozinha. Ao longo de 20 dias, Mitiko voltou a usar os talheres, a sentir o sabor dos alimentos, e já conseguia tomar uma sopa inteira sem sujar suas roupas.
Em todos os nossos encontros, a saudade do caçula era evidente. Em cada lembrança, cada pergunta, ela se lembrava de seu querido Júlio.
No momento em que recebeu alta hospitalar, não havia ninguém para buscá-la. O filho tão querido havia se casado e morava com os sogros em outra cidade, e sem espaço na vida dele para a mãe.
A esperança em voltar a morar com uma famÃlia de verdade, que surgiu assim que o filho voltou do Japão, já não existia mais.
Para toda a equipe de profissionais do hospital, ela era a paciente mais querida. Não reclamava, comia sem demora e não resistia a nenhum procedimento de enfermagem. E para eles, os filhos e o marido eram desnaturados e sem escrúpulos.
Algumas vezes também caà na tentação de julgar a famÃlia e condená-los por abandoná-la. Pensando com mais cuidado, concluà que não cabia a mim sentenciar ninguém, principalmente porque não conhecia suas histórias.
Só fazendo parte da famÃlia é que poderemos entender as atitudes e escolhas que cada um faz ao longo da vida. Não que eu ache justo Mitiko morar em uma casa de repouso e precisar da intervenção do serviço social para alguém ir tirá-la do hospital. Mas o meu papel – e dos outros profissionais de saúde – é ajudá-la a viver bem os seus últimos anos. Apontar culpados, a essa altura do campeonato, não irá estruturar relações que se desmancharam ao longo de uma vida inteira.
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junho 3, 2009
Tags: Abandono, Doença de Alzheimer, Idosos, Problemas familiares Posted in: Doença de Alzheimer, Geriatria, História de Vida, Neurologia





Mariana, há alguns anos, atendi duas pacientes em um asilo. Eu sentia bastante principalmente por causa de uma das senhoras, praticamente abandonada pela famÃlia, raramente iam vê-la. Não conseguia entender como deixavam pais ou avós assim – amo minha famÃlia e não acredito que conseguiria colocá-los em um asilo. Sempre que ia até lá, chegava em casa triste por isso, me sentia muito mal. Até que conversei bastante com minha mãe, e ela me falava o mesmo que você comentou. Não dá pra julgar as atitudes de uma famÃlia que você não conhecer, porque você não tem como saber tudo o que aconteceu. Minha mãe falava: “Você sabe se ela batia muito nos filhos? Se ela era atenciosa com eles? Se ela também não os abandonou?”
A partir disso, por mais que continuasse sendo difÃcil vê-las sozinhas, aprendi a não julgar e fazer por elas o que podia: dar o melhor atendimento que eu conseguisse e, assim, levar um pouco mais de conforto para elas.
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clenes socorro costa ferreira Respondeu:
dezembro 12th, 2009 at 0:51
Mariana, estou pesquisando sobre idosos abandonados por seus familiares para o meu tcc do curso de ciências sociais, e cada vez que leio um artigo sobre essa pratica de abandono ou tenho contato direto com essas pessoas que na maioria das vezes são verdadeiros farrapos hgumanos excluÃdos da sociedade e do convÃvio social familiar, mais, me impressiono com a capacidade do ser humano de descartar seus idosos, como se fossem mercadorias com prazo de validade vencido, sem nenhuma utilidade, neste mundo capitalista em que vivemos, globalizado, informatizado, e nada tradicional.
Como disse a Renata, o que podemos fazer por esses idosos rejeitados e abandonados por suas famÃlias e pela sociedade, é tornar seus dias mais fácies, menos dolorosos, e mais felizes, a final não podemos julgá-los , pois se no passado erram com seus filhos, foi tentando acertar.
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Lucia Respondeu:
dezembro 12th, 2009 at 21:07
Pois é Mariana e Renata e Clenes estou me sentindo exatamente assim,
por não ter tido filhos cuidei de meus pais com doenças prolongadas e agora não localizo um abrigo como moradia para minimizar a exclusão, se souberem me encaminhar para alguma proposta de abrigo eu agradeceria, a hipotese de carma não me convence pois sempre amei a benignidade e procurei atender a todos que necesssitavam de algo a meu alcance
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Partilho da angústia vivida por você Mari, por trabalharmos no mesmo ambiente e por ter acompanhado seus atendimentos com Dona Mitiko…confesso que também me afeiçoei a essa senhora, que cheia de simpatia me conquistou no dia em que a vi segurando a colher e comendo sozinha com expressão de orgulho.
Nós que lutamos tanto para dar o melhor para os nossos pacientes, sempre ficamos indignadas ao ver o descaso dos familiares – que teoricamente são os que devem estar mais próximos do paciente nos momentos angustiantes da internação.
Concordo com o que você diz: não devemos julgar a famÃlia, pois não sabemos o que se passa no dia-a-dia deles.
Cabe a nós, profissionais de saúde, lidar com a frustação e com os nossos limites e fazer o possÃvel para melhorar a qualidade de seus últimos anos…
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Ai, Mari. Te entendo. Mas à s vezes fico doidinha com algumas situações…
No começo do ano eu trabalhei o tema de memória familiar com uma turminha. Na primeira parte do trabalho, os alunos visitaram asilos e entrevistaram idosos, depois de termos algumas aulas sobre o tema (memória). Li para eles a história de Seu Ariosto, um senhorzinho que nasceu no começo do século XX, na cidade de São Paulo. História de vida que foi regristrada pela Ecléa Bosi no livro “Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos”. Depois, eles leram o livro “Velhos Amigos” (que é de literatura juvenil, elaborado pela mesma autora). Então, fizeram entrevistas com os pais e demais parentes e escreveram um ‘livro’, contando a história da famÃlia (histórias dos bisavós, avós, pais, tios, irmãos…). Falaram sobre gostos, costumes, perdas, alegrias, medos, mudanças etc. etc. Os trabalhos ficaram lindos. No entanto, um aluno não fez o trabalho. Me disse que a história dele era uma desgraça. Fiquei apreensiva. Ele me entregou um textinho curto, no último dia de aula do trimestre, contando que a mãe casou e foi morar em outro paÃs e teve outro filho lá. Quando li, fui conversar com a coordenadora, que me contou que era verdade, a mãe casou, o marido não quis o filho que ela teve antes, e ela se foi. O pai do menino não quis ficar com ele e ele fica uma parte do tempo com uma avó e depois com outra. Pode? Pra mim foi difÃcil não julgar. O sofrimento do meu aluno (e a minha demora para descobrir que o tema o agredia muito) me magoou bastante. Histórias de alunos me ferem… Mas aos poucos a gente vai percebendo qual é o limite, até onde podemos ir, ajudar, qual é o nosso papel como profissional. Aprendi de que maneira devo abordar alguns temas em sala de aula. Não dá para pular temas, tirar do calendário, por exemplo, o dia das mães, porque alguns alunos não têm mãe…
Nesse episósio que contei, depois de alguns dias fiquei mais calma, mas confesso que na hora eu pensei: que mãe é essa? E fiquei muito chateada…
Imagino que com você seja um pouco parecido… A gente sempre acaba se envolvendo com as pessoas… Trabalhar com gente é assim. E é por isso mesmo que escolhemos esse trabalho, eu acho.
Um beijo e um abraço apertado
Cá
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Mariana Fulfaro Respondeu:
julho 25th, 2009 at 11:21
Mais uma vez concordo com você. Não podemos pular temas.
Acho que essas duas histórias se aproximam muito com relação ao sofrimento e ao abandono, nos dois casos podemos inclusive lançar mão de instrumentos legais, como o Estatuto da Criança e o Estatuto do Idoso.
Bjus
P.S.: Estou lendo esse livro da Ecléa Bosi! rs
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Ps. Eu disse que não dá pra “pular temas” porque na vida, em várias outras situações, os alunos se deparam com essas temáticas. Por isso os professores não podem fugir, mas devem encará-las e ter consciência (e delicadeza) no seu trabalho.
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Verdadeiramente as relações sociais e familiares são muito complexas de se entenderem visto que, acontecem embuÃdas em mecanismos próprios que podem fortalecer ou não os vÃnculos afetivos e relacionais, sobretudo no caso de crianças de 0 a 6 anos e idosos. Daà estou de pleno acordo quando é ressaltado a importância de utilizarmos os preceitos legais estabelecidos no ECA e no Estatuto do Idoso.
Bjs
Márcia Rezek
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