Gerações de abandono
Dulce estava cansada de passar dia e noite no hospital. Nem sabia direito o que estava fazendo lá, não estava doente, e sua mãe era como uma tia distante. Contudo, algo fazia com que ela permanecesse ali, firme.
Cuidava de Esmeralda, que tinha ido ao hospital apenas para fazer alguns exames. Aos 92 anos, era obesa, falava pouco e quase não conseguia respirar por causa da água em seus pulmões. Em seus primeiros dias de internação, praticamente não ficava sozinha, Dulce não a deixava.
O cuidado chegava a ser excessivo. Acompanhava todos os meus atendimentos, ajudava a mãe a comer, a trocar de roupa e passava longas horas fazendo companhia. Mas apesar de toda a dedicação, Dulce guardava algo amargo. Olhava para a mãe de uma maneira fria, e estava mais abatida e desgastada do que os parentes costumam ficar após alguns dias ao lado de um leito.
Depois de umas duas semanas já nos conhecíamos bem e, graças ao trabalho contínuo de terapia ocupacional, ela veio me contar: “Olha, para mim é muito difícil ficar aqui com a minha mãe, não repare no meu jeito. Ela nunca me deu bola, me rejeitou desde pequenininha, sempre me deixou em casa sozinha para ir viajar, e hoje sou uma das poucas pessoas que restaram em sua vida.” Uma mágoa guardada durante décadas se deixava escapar nas suas palavras.
A Terapia Ocupacional pressupõe que haja vínculo entre o terapeuta e o paciente, ou entre o terapeuta e os familiares. Durante o tratamento deve ser construída uma história entre as partes, e o paciente tem que se sentir à vontade e acolhido para dividir angústias e segredos.
Por isso, esse não era o primeiro caso em que eu via uma filha ou nora ter que tratar de alguém que já havia lhe deixado feridas no passado. Muitos idosos acabam sozinhos nos seus últimos momentos de vida por causa de erros que cometeram décadas atrás.
(Veja aqui a história de dona Mitiko)
A história começou a mudar, porém, quando chegou de Minas Gerais Estela, filha de Dulce e neta de Esmeralda.
Ela veio com o marido e o filhinho de apenas quatro anos para ajudar nos cuidados com a avó, já que a simples internação para uns exames se transformou em ida à UTI após um derrame.
Estela trouxe luz ao pequeno quarto enfermo. Tirou licença do emprego em sua cidade e cativou um sorriso que eu ainda não tinha visto no rosto da minha paciente.
Dulce não deixou de acompanhar a mãe. Muito pelo contrário, filha e neta se revezavam, e a velhinha doente jamais ficava sozinha. Ter dividido comigo as más recordações serviu apenas para que ela reunisse mais forças para continuar indo ao hospital diariamente.
Mas depois de algumas semanas, percebi que a alegre Estela era tão formal com Dulce quanto esta era com sua mãe. As duas conversavam, combinavam os turnos, se organizavam para cuidar da casa, mas dali nunca saíam beijos ou abraços.
Em uma tarde chuvosa, quando voltava para o hospital depois do almoço, Estela me parou e chorando me contou a sua parte da história. “Desde criança, fui criada pela minha avó. Tudo o que eu sei foi ela quem me ensinou. Minha mãe nunca esteve ao meu lado.”
Como se fosse hereditário, Dulce reproduziu a indiferença da mãe com sua própria filha, deixando-a abandonada. A velhinha Esmeralda, por sua vez, para compensar a sua ausência, cuidou de Estela.
Sem perceber, essas três gerações de mulheres haviam entrado em ciclo vicioso de abandono e redenção. Nesse momento, não pude deixar de pensar como seria com o filhinho de Estela. Ele também padeceria do desamparo?
Foram mais de 90 dias no hospital, em que avó, filha e neta tiveram que conviver comigo, a terapeuta ocupacional, e com os outros profissionais de saúde entre passagens por enfermarias e UTIs. Tudo isso sob a combinação do confronto diário com as piores lembranças de suas vidas, e o sofrimento de lidar com um dos lados mais duros da existência: o fim de Esmeralda.
O encontro diário forçado foi se tornando cada vez mais intenso. Ver passo a passo alguém querido definhando, e ainda ter que continuar vivendo, foi aproximando aos poucos essas mulheres, tornando-as cúmplices.
O tempo foi passando e o corpo da senhora de 92 anos já não estava reagindo às complicações que vieram após os derrames.
Quando ela se foi, Dulce e Estela estavam aos seus pés, unidas como jamais foram. A velhinha, que havia reparado seu erro criando a neta, agora via Dulce ali, tentando consertar suas próprias culpas cuidando dela. A verdade é que, à beira do abismo que separa a vida e a morte, três gerações de desamores foram reparadas em alguns meses, em um leito de hospital.
Quando voltou para Minas, Estela não teve dúvidas: fez a mãe juntar as malas e a levou embora para que vivessem juntas para sempre. Assim, iriam ensinar ao pequeno menino de quatro anos a não cometer grandes erros, evitando que ele tivesse algo para se desculpar quando chegasse a hora de Dulce. E de Estela. E dele mesmo.
Alguns dias após o falecimento de Esmeralda, antes de irem embora para Minas, Dulce e Estela vieram se despedir de mim. Apesar do fim da matriarca, elas estavam bem, felizes com o que estava por vir. O agradecimento, segundo elas, não poderia ser reproduzido em palavras, por isso ganhei de cada uma um caloroso, forte e demorado abraço.
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dezembro 10, 2009
Tags: Idosos, Problemas familiares Posted in: Geriatria, História de Vida





A vida nos leva a fatos que só a vida pode nos recompor. Mas as doenças persistentes ou sistemáticas ou crônicas enfraquecem os laços que um dia foram profundos. O que fortalece os laços são as doenças agudas que no abraço amigo pode encontrar a cura. A cronicidade leva ao distanciamento dos familiares e mesmo entre o doente e o cuidador. Os finais de anos de uma vida na doença é por demais angustiante.
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Mais uma vez parece que a terapia ocupacional ajuda a cuidar não só dos pacientes, mas de seus familiares.
Bela história.
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Mariana Fulfaro Respondeu:
dezembro 12th, 2009 at 16:57
E pelo jeito você sabe cada vez mais sobre a Terapia Ocupacional, Edel! Obrigada!
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Mari,
conheci finalmente seu blog e já virei fã.
Que jeito lindo de encarar sua profissão! Mas não imaginaria nada diferente vindo de você…
Parabéns!
beijo
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Mariana Fulfaro Respondeu:
dezembro 12th, 2009 at 16:52
Obrigada, Fabi!
Muito bom ter o apoio dos amigos!
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Ola!
Gostei muito de sua entrevista na CBN! E de seu jeito de encarar a profissão. Tem um “quê” de poesia.
Parabéns…Continue assim!
Demóstenes – Manaus – AM
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Mari,
você foi genial, como sempre!!!
seus atendimentos mais marcante estão sendo registrados, isso é muito legal.
Lendo suas histórias, lembro de casos que já atendi e percepções do ponto de vista do serviço social….dos aprendizados que tive com muitas delas. Você tem tido percepções maravilhosas e está escrevendo muito bem, continue mandando suas histórias. bjs.
Rose
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Olá Mari,
Obrigada pela sua visita ao Longevidade,realmente, as doenças as vezes cumprem um papel de rejuntar famílias esfaceladas, creio que os hospitais deveriam ter mesmo um serviço como o seu de apoio à essas famílias. Você conta essa história, com muita ternura. Belo trabalho o seu. Parabéns,
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