Depois de 23 anos vivendo trancafiada em um hospício, de ter levado alguns eletrochoques e tomado muita medicação, Jurema foi libertada e seguiu direto para a casa de seu irmão, em Santo André.
Aos 19 anos, com depressão, ela havia internado em um hospital psiquiátrico. Quando a encontrei pela primeira vez, devido à sua aparência, eu jurava de pés juntos que ela tinha pelo menos 50 anos – estava, na realidade, com 43.
Após muito tempo de internação – e do pacote básico de tratamento que descrevi acima – é comum a pessoa não conseguir realizar tarefas simples como escovar os dentes, pentear os cabelos, tomar banho e até mesmo falar. Quando isso acontece dizemos, utilizando os jargões da Terapia Ocupacional, que essa pessoa “perdeu a independência”.

Encontramos também recém-saídos dos hospitais psiquiátricos que deixam de ter qualquer tipo de desejo. Simplesmente não sentem vontade de comer algo especial, de viajar, de comprar uma roupa nova, de nada.
O sistema de funcionamento de um manicômio contribui para isso graças à sua dura rotina. Há horários preestabelecidos para tudo, refeições prontas, sem opções de escolha, e a privação do convívio com amigos, familiares, trabalho, e qualquer outra pessoa com quem os pacientes possam estabelecer novas relações. À essa falta de desejo, recorrendo mais uma vez aos jargões da Terapia Ocupacional, chamamos de “perda da autonomia”.
Nesse mundo, o paciente, que acaba sendo impedido de tudo, entra em um ciclo de isolamento. E normalmente, quem tenta quebrar isso acaba levando uns bons safanões.
Tudo isso parece ser meio inacreditável, mas é assim mesmo que acontece. Tanto que o objetivo do terapeuta ocupacional nesses casos é justamente resgatar essas habilidades que acabaram perdidas.
Quando cheguei ao Naps (Núcleo de Atenção Psicossocial) de Santo André, encontrei Jurema sem independência nem autonomia.
Após alguns meses de tratamento, ela contou que ganhava uma mesada do seu irmão: a ninharia de dois reais por semana. E arriscou-se timidamente a dizer que queria comprar uma tigela. Entretanto, a compra teria que ser em segredo, pois se alguém de sua casa soubesse da aquisição, ela teria seu salário semanal cortado.
Como terapeuta ocupacional, seria uma blasfêmia deixar escapar aquele ensaio de vontade. Era necessário legitimar o que ela queria, pois só assim eu a estaria respeitando como uma pessoa de direitos civis e políticos.
Seu trajeto diário até o Naps era sempre escoltado por algum familiar. E uma vez lá dentro, Jurema não se arriscava a pôr os pés pra fora do portão da instituição. Os vários anos que havia passado no manicômio a ensinaram bem a não se atrever a burlar as regras, e, nessa lógica, um portão fechado não deve ser ultrapassado. Jamais.
No caminho para o supermercado, ela denunciava sua inquietação com repetidas olhadelas para trás e com um constante interrogatório para saber se estávamos no caminho certo.
Sua boca desdentada, roupa maltratada e a agitação chamaram atenção logo na entrada da grande rede de supermercados. O segurança prontamente veio dizer que ela não poderia entrar. E eu, acompanhada por outras duas terapeutas ocupacionais, fui logo dizendo que ela estava conosco, e que iria entrar, sim.
Jurema escolheu a tigela rapidamente, como se estivesse cometendo um crime. Na fila do caixa, os outros clientes não conseguiam tirar os olhos dela.
A funcionária do caixa mal conseguiu cobrar a tigela, pois estava atônita. Não sei o que ela esperava. Ainda me pergunto: será que ela achava que Jurema iria pular em seu pescoço? Ou tinha medo que a pobre mulher sacasse uma arma e desse voz de assalto?
O que importa é que, após toda essa aventura, Jurema ficou radiante em ter conseguido comprar uma simples tigela. E esse episódio foi o primeiro passo para ela voltar a se relacionar com pessoas que estavam fora da sua família e do Naps.
Essa é uma dentre as muitas histórias que justificam o fechamento dos hospitais psiquiátricos. A maior garantia da sociedade moderna é a cidadania, e não temos o direito de privar ninguém disso.
Aprovada em 2001, a Lei Federal 10.216 redireciona a assistência de saúde mental para serviços de base comunitária. O Naps, felizmente, faz parte desse novo tratamento.




23/01/2011 em 9:18 am
Mariana, fico tão feliz com a minha profissão. Já trabalhei em hospital psiquiátrico, e vivi este seu momento. E fui barrada pelo próprio guarda da minha instituiçãi, que se atracou com a paciente, pois não queria que ela saísse, mesmo eu estando com sua escolta. E okha que era um passeio pelo sítio do hospital. Mas, no final deu tudo certo. Continue com sua luta nessa profissão gloriosa, que é a nossa. Beijos de luz.
02/02/2011 em 10:25 pm
Obrigada por compartilhar essa experiência, Alberlene!
Realmente o dia-a-dia do terapeuta ocupacional exige perseverança…
Bjus
24/11/2010 em 7:33 pm
Olá Mariana! Gostei bastante dos seus relatos, que mostram um pouco tb do meu trabalho, do meu cotidiano. Também sou Terapeuta Ocupacional. Atuo em um CAPS (Centro de Antenção Psicossocial) na cidade de Jequitinhonha em Minas Gerais e já estagiei em uma Residência Terapêutica em Belo Horizonte,onde essas vivências de resgate de autonomia, independência, liberdade e cidadania se tornam fatos que estão mudando a história de muitas pessoas! Gostaria muito de continuar lendo sobre seu trabalho e, quem sabe, compartilhar experiências para que nosso trabalho torne-se cada vez mais dinâmico e inovador!
Bjos,
Samila.
29/07/2010 em 4:02 pm
Olá Mariana..me chamo Ricardo (Rick)também sou T.O e venho acompahando o seu blog. LINDOS RELATOS DE UMA PRÁTICA QUE ME DIZ MUITO SOBRE OS PROCESSOS DE “LIBERDADE” QUE DIARIAMENTE ESTAMOS PROVIDOS A AJUDAR NOSSOS COMPANHEIROS, NA QUAL ASVEZES CHAMAMOS DE PACIENTES, MAS QUE SE COLOCAM A NOSSA FRENTE SUSSURRANDO DESEJOS EM ESTAR LIVRES DOS EGESSAMENTOS DA DURA ROTINA DESTE MUNDO INVENSÕES! ESPERO, CONTENTE, QUE ESTE ESPAÇO POSSA COMPARTILHADO COM MUITOS TRAPEUTAS OCUPACIONAIS E NÃO TERAPEUTAS OCPACIONAIS, PARA CRIARMOS JUNTOS UM, MESM NO CLICHÊ, JUSTO, DIFERENTE E AO MESMO EQUIPARADO NAS IGUALDADES! UM BEIJO DO TAMANHO DA VIDA.
RICK
14/07/2010 em 10:48 am
Mariana, eu tenho várias duvidas que gostaria de lhe perguntar, como faço? Beijo
14/07/2010 em 10:46 am
olá, Mariana. Sempre me emociono ao ler sua historias de experiencias… e cada vez mais peço a Deus que me dê direçao e sabedoria para que, com a minha profissao e os dons que Ele nos concede, eu possa ajudar algumas vidas. Parabens pelo seu lindo trabalho. Estarei sempre lhe acompanhando, pois tem me ajudado muito. Deus abençoe.
23/04/2010 em 2:28 am
Oi, adorei o post! Se puder me visite, http://sindromemm.blogspot.com
11/01/2010 em 2:18 pm
Tenho um filho de 6 anos,com atrofia cerebral,retardo mental e hiperatividade. Foi estimulado precocemente de 2 meses a 2 anos,e respondeu muito bem aos tratamentos motores. Ouve mas não entende, não fala mas diz tudo. Aprende o que vê(fazer). È terivelmente danado, e gozador quando está aprontando. Frequentou T.O. a lª vez em setembro/09,e não foi aceito,porque a profissional não conseguiu trabalar com ele,mas, isso foi desde o lº momento.
Fiquei muito decepcionada e triste. Gostaria de alguma indicação sua, de algum livro, pessoa ou lugar que eu possa tratá-lo ou orientar-me. Moro em Teresina-PI. Sei que é muito dificil psiquiatra infantil, e nesse momento de desespero, estava procurando um manicômio infantil que aceite a mãe com o paciente. Me sinto só, não conto com ajuda de parentes e nem amigos, ninguem quer ficar com ele por alguns momentos. Sei que não é psicóloga,mas foi a lª que encontrei. Obrigado por me ouvir.
Um abraço bem forte. Regina
25/11/2009 em 7:18 pm
Parabéns pela bela história e dedicação com a paciente.
Quem dera todos os profissionais agissem assim
Com certeza não teríamos tantas noticias trágicas envolvendo portadores de doenças mentais.
bjs
Joicinha
24/11/2009 em 1:56 pm
Fiquei emocionada lendo este texto. Continue sendo essa profissional dedicada e ame muito a todos os seus pacientes.
Necessitamos muito de gente que ama o que faz.
Vilma e Bruno sempre juntos até quando Deus permitir.
01/11/2009 em 4:20 am
Ai, que agonia me deu lendo esse texto! Histórias lindas, Mari, continue escrevendo! Essa personagem daria uma ótima reportagem
01/11/2009 em 10:28 am
Que são histórias lindas são mesmo! Até difícil de acreditar que são reais, né?
Obrigada pela visita!
15/08/2009 em 3:31 pm
História de Vida!!
E para quem ainda pensa que a Terapia Ocupacional, assim como uma pesquisa qualitativa, não tem resultados comprovados ..vai um meio de o ser!
Viva a CIDADANIA! E que nossa atuação seja nessa perspectiva de luta, de busca de novas formas de clínica!
Parabéns Mariana!
Bela contractualidade!!
26/06/2009 em 5:29 pm
oi mariana, sou aluna de to e vou fazer um artigo sobre depressao se vc puder me da umas dicas agradeço…..
09/03/2009 em 6:08 pm
oi, sou terapeuta ocupacional e também trabalho com usuarios de Caps e no cerest, estamos em fase de mudanças por aqui pois esta sendo implantado um caps 3 no hospital psiquiatrico de nossa região e ainda passamos por dificuldades, parece que as pessoas tem medo da palavra mudança, e nós sabemos de quanto eles “nossos usuarios” são capazes e iremos mostrar pra essa sociedade que eles podem e devem ter direito a cidadania. adorei seu blog.
28/01/2009 em 11:15 am
Parabéns!
À TO Mariana pelo seu blog, que através dele muitos poderão ser ajudados e esclarecidos.
Deixo a você e a todos portadores de alguma deficiência e familiares esta pequena escrita:
A Mente
A máquina mais complexa do ser humano,
A mente em desencanto.
Depressão, opressão, transformação,
A mente sem coordenação.
Julgamentos, incompreenção, insatisfação.
Revoltas, descórdias e derrotas
Decisões incabíveis
Resultados insolúveis
Metamorfose, para ser iluminada, irradiada, espelhada, consagrada.
Crer é saber
Saber é conhecer
Conhecer é buscar
Buscar é determinar
A mente, teia exuberante com várias ligações
Tem que ser cuidada, em virtude
Para que saudável use em plenitude
Na ampla ação para transformação da configuração em realização.
A beleza da vida está nos pequeninos gestos.
Parabéns a todos os profissionais.
28/01/2009 em 11:50 am
Olá!
Obrigada pela visita e pela dedicatória!
Parabéns pela poesia! Para mim, ela ilustra essa história e muitas outras.
Sinta-se a vontade para expôr aqui suas produções! ;D
24/01/2009 em 8:10 pm
Olá Mariana,
legal saber que há mais terapeutas ocupacionais se inscrevendo na blogsfera, ocupando a mesmo com seus saberes e construções de pensamentos.
Só fazendo um adendo, em Santo André o único CAPS é o infantil, (CAPS-i) os outros são NAPS ( Nucleo de Atenção Psicossocial), São esses dispositivos que auxiliam no tratamento da “Jurema”.
Grande abç
andré.
27/01/2009 em 4:41 pm
Olá, André!
Obrigada pela visita, e, principalmente, pela contribuição.
Espero tê-lo aqui mais vezes!
Para os interessados, segue os endereços dos Naps e Caps de Santo André (SP):
- Caps AD (Dependência Química)
Rua Henrique Porchat, 44
Bairro: Vila Bastos – CEP: 09040-240
Telefone: (11) 4690.5294
- NAPS I (Adulto)
Rua Marechal Hermes, 33
Bairro: Jardim – CEP: 09090-230
Telefones: (11) 4437-2325; (11) 4468-0065; (11) 4436-5680
- NAPS II (Adulto)
Praça Chile, 140
Bairro: Parque das Nações – CEP: 09210-270
Telefone: (11) 4997.6768
- Caps i (Infantil)
Rua Correia Sampaio, 35
Bairro: Vila Vitória – CEP: 09130-140
Telefone: (11) 4994.3388
Um grande abraço,
Mariana Fulfaro
23/01/2009 em 1:51 pm
Mari!
Parabéns pelo blog! Vou ser abusado e dizer que vou consultá-lo para, além de matar minha ignorância de cada dia, roubar umas idéias – espero que não se incomode.
beijos,
Boselli
27/01/2009 em 4:02 pm
Será mais que uma honra, para mim e para meus personagens, se esse blog servir de inspiração para o sr. documentarista! rs
21/01/2009 em 12:34 pm
Olá Mariana!
Que bom receber sua visita no meu blog… Fiquei feliz com sua mensagem!
Realmente precisamos explicar bem o que fazemos. Meu blog não é sobre TO, mas observei que seria necessário uma breve explicação.
Aproveito também pra dizer que amei seu site. Tenho muita vontade de fazer um sobre a profissão e meu trabalho. Acho que precisamos “mostrar a cara”. Só com muita divulgação e boa informação conseguiremos maior reconhecimento.
Parabéns…
Estarei sempre por aqui para acompanhar suas atualizações!
Abraços,
Vanessa
21/01/2009 em 11:39 am
Oi Mari! Adorei esse seu post! Aliás todas as histórias estão muito bacanas. Acho que quem não é da área até pensa que é mentira. Mas bem sabemos as histórias de vida que nos deparamos no dia-a-dia dessa profissão.
Ao pensarmos no caso das pessoas com sofrimento psíquico parece que tudo fica mais complicado ainda: para a sociedade o direito dessas pessoas de decidirem coisas de suas próprias vidas é quase nula pois lhes falta algo primordial, a razão. Cada vez mais privados dos seus direitos, coisas simples, como a que você descreveu em sua história, vão ficando cada vez mais difíceis de serem alcançadas.
Pode ter certeza que sempre estarei acompanhando o seu blog.
21/01/2009 em 11:49 am
Bel, que bom que você gostou!!!
Acho que escrever sobre a Jurema é uma maneira de protestar contra os “tratamentos” que ainda encontramos Brasil a fora, mesmo com a aprovação da Lei da Reforma Psiquiátrica, que citei no post.
Precisamos mudar isso…
24/07/2010 em 2:19 am
Olá Mariana..me chamo Ricardo (Rick)também sou T.O e venho acompahando o seu blog. LINDOS RELATOS DE UMA PRÁTICA QUE ME DIZ MUITO SOBRE OS PROCESSOS DE “LIBERDADE” QUE DIARIAMENTE ESTAMOS PROVIDOS A AJUDAR NOSSOS COMPANHEIROS, NA QUAL ASVEZES CHAMAMOS DE PACIENTES, MAS QUE SE COLOCAM A NOSSA FRENTE SUSSURRANDO DESEJOS EM ESTAR LIVRES DOS EGESSAMENTOS DA DURA ROTINA DESTE MUNDO INVENSÕES! ESPERO, CONTENTE, QUE ESTE ESPAÇO POSSA COMPARTILHADO COM MUITOS TRAPEUTAS OCUPACIONAIS E NÃO TERAPEUTAS OCPACIONAIS, PARA CRIARMOS JUNTOS UM, MESM NO CLICHÊ, JUSTO, DIFERENTE E AO MESMO EQUIPARADO NAS IGUALDADES! UM BEIJO DO TAMANHO DA VIDA.
RICK