Depois do almoço – bem na hora daquela embriaguez de sono – ou quando você está terminando algo importante, sempre vem alguém chamar a sua atenção com relação à postura no computador. Ah, e todos têm uma história de algum parente, do vizinho ou do papagaio para justificar o pitaco.
Das duas uma: ou você se arruma rapidinho e pensa que deveria sentar direito, ou manda um sorriso amarelado e pensa “ai que saco, bem agora!”.
É comum as pessoas bem-intencionadas reproduzirem tudo o que ouvem a respeito de saúde. Acho, sinceramente, que não há nenhum mal nisso. O problema é que nem sempre essas informações são confiáveis.
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Depois de 23 anos vivendo trancafiada em um hospício, de ter levado alguns eletrochoques e tomado muita medicação, Jurema foi libertada e seguiu direto para a casa de seu irmão, em Santo André.
Aos 19 anos, com depressão, ela havia internado em um hospital psiquiátrico. Quando a encontrei pela primeira vez, devido à sua aparência, eu jurava de pés juntos que ela tinha pelo menos 50 anos – estava, na realidade, com 43.
Após muito tempo de internação – e do pacote básico de tratamento que descrevi acima – é comum a pessoa não conseguir realizar tarefas simples como escovar os dentes, pentear os cabelos, tomar banho e até mesmo falar. Quando isso acontece dizemos, utilizando os jargões da Terapia Ocupacional, que essa pessoa “perdeu a independência”.
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Eu gostaria de propôr um exercício para falar um pouquinho da doença de Alzheimer. Pense na sua avó. Lembre-se de todos os lanches e doces gostosos que ela fez para você, das vezes em que você ia dormir na casa dela e ela deixou a cama arrumadinha e cheirosa, das vezes em que você a encontrava e ganhava aquele abraço apertado que parecia que seus ossos iam quebrar, e logo em seguida vinham os beijos e mordidas na bochecha. Lembrou? Sensação boa, né?
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Aos 65 anos, dona Josefa frequentava um grupo terapêutico para idosos no Centro de Saúde do Butantã. Ela não tinha amigos e ficava a maior parte do tempo tomando conta de casa, dos dois netos pequenos e de Terezinha, sua sogra com doença de Alzheimer. Certo dia, chegou no centro de saúde extremamente abatida. E sem um dos dentes da frente.
A doença de Alzheimer é um tipo de demência que não se sabe a causa e que ainda não tem cura. Os pacientes vão perdendo pouco a pouco a memória: se esquecem dos nomes de conhecidos, deixam o fogão aceso, se perdem no caminho de casa e não conseguem formular uma frase inteira. Com a evolução da doença, vão deixando de tomar banho, trocar de roupa e ir ao banheiro sozinhos.
Cuidar de uma pessoa doente de 86 anos estava ficando cada vez mais difícil para dona Josefa. Com o avanço da doença, sua sogra já não reconhecia mais a casa em que estava morando, acreditava que familiares mortos estavam vivos e que Josefa estava decidida a matá-la.
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Quando Solange recebeu o telefonema da mãe avisando que Bruno estava no hospital, por um instante se arrependeu de ter largado o sertão da Bahia para tentar a vida na capital paulista. Havia deixado o filho – na época com oito anos – morando com os avós, e veio trabalhar como empregada doméstica em São Paulo. Ao saber do acidente, não pensou em outra coisa: o menino precisava vir para cá, e ser tratado no Hospital das Clínicas.
Bruno havia perdido a mão esquerda em uma moedora de cana. E não era dessas elétricas, não. No sertão baiano, onde morava, ainda usavam aquelas engrenagens de madeira puxadas por bois – como a que aparece no filme Abril Despedaçado. Foi ajudando seus avós a moer ração para o gado que o menino se distraiu, e teve o membro completamente destruído.
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Há muitos anos, desde que comecei os primeiros estágios na USP, venho conhecendo e atendendo pessoas com as mais diversas dificuldades. Desde velhinhos no final da vida que têm que se adaptar à perda de memória até crianças na flor da idade que desde cedo aprendem a conviver com uma amputação.
No meio de tantas vidas e histórias, fui descobrindo que o terapeuta ocupacional é um resolvedor de pequenos grandes problemas. Ajudar alguém que tem a mão quase paralisada a aprender a abrir uma torneira, ou devolver a habilidade de fazer compra em um supermercado a alguém que acabou de sair de um pesado tratamento psiquiátrico são alguns dos quebra-cabeças que um profissional como eu tem que saber juntar.
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28/01/2009
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